A fascinante história da domesticação do cão e da sua ligação inquebrável com a humanidade — da pré-história aos dias de hoje.
Há mais de catorze mil anos que os cães caminham ao nosso lado. Ao longo dos milénios, atravessaram connosco florestas, desertos, oceanos — e até o silêncio do espaço.
Cinco momentos que moldaram a relação entre o ser humano e o seu mais antigo aliado.
A domesticação do cão terá começado entre os lobos cinzentos da Eurásia que se aproximaram dos primeiros acampamentos humanos. As evidências mais aceites situam este encontro entre 15 mil e 40 mil anos atrás, no que é hoje a Europa, a Sibéria e a Ásia Central.
A teoria da autodomesticação sugere que os lobos mais tolerantes começaram a alimentar-se dos restos deixados pelos humanos, dando origem, ao longo de gerações, a uma nova espécie: o Canis familiaris.
Em Bonn-Oberkassel, na Alemanha, foi encontrada a sepultura partilhada de dois humanos e um cão jovem com cerca de 14 200 anos. O animal, doente com esgana, terá sobrevivido vários meses graças aos cuidados humanos.
É a prova mais antiga e amplamente aceite de uma ligação afetiva entre o ser humano e o cão — muito antes da agricultura ou das aldeias permanentes.
No Antigo Egito, os cães eram considerados sagrados. Anúbis, o deus com cabeça de canídeo, guiava as almas no além e protegia as necrópoles. Cães mumificados foram descobertos aos milhares em santuários.
Na Grécia e em Roma, os cães acompanhavam caçadores, guardavam rebanhos e lutavam ao lado dos exércitos. O mítico Cérbero, de três cabeças, guardava o submundo, e Peritas, fiel companheiro de Alexandre, o Grande, teve uma cidade erguida em sua honra.
Na Europa medieval, os cães tornaram-se peças centrais da vida rural e nobre. Eram usados na caça à raposa e ao javali, no pastoreio de ovelhas e bois, e como guardas de castelos e mosteiros.
As cortes europeias começaram a desenvolver as primeiras raças especializadas — galgos, mastins, sabujos — antecipando a explosão de variedades que viria séculos mais tarde.
Em 1957, a cadela Laika tornou-se o primeiro ser vivo a orbitar a Terra, a bordo do Sputnik 2. Hoje, os cães trabalham em equipas de busca e salvamento, em terapia assistida, na deteção de explosivos, narcóticos e até de doenças como o cancro.
A seleção genética moderna deu origem a mais de 340 raças reconhecidas, mas o papel mais importante mantém-se: o de companheiro leal, presente em quase metade dos lares do mundo.
Três forças que, em conjunto, transformaram o lobo selvagem no nosso companheiro de sempre.
A ciência por detrás da relação mais antiga entre duas espécies diferentes.
Cães e humanos partilham cerca de 84% do código genético. Esta proximidade ajuda a explicar respostas emocionais e fisiológicas semelhantes.
Quando humanos e cães olham nos olhos, ambos libertam oxitocina — a chamada hormona do amor — fortalecendo o vínculo afetivo.
Os cães são uma das poucas espécies capazes de ler expressões faciais, seguir o olhar humano e interpretar gestos como apontar.
Cães sincronizam os ritmos circadianos e até o batimento cardíaco com os dos seus tutores em momentos de calma e contacto.
A cooperação interespécies entre humanos e cães é única no reino animal — fruto de milhares de anos de convivência.
Aprendem rapidamente por reforço positivo e podem reconhecer mais de mil palavras, gestos e contextos diferentes.
Pequenas maravilhas da biologia e do comportamento canino.
Os cães possuem cerca de 300 milhões de recetores olfativos, contra apenas 6 milhões dos humanos. Conseguem distinguir odores em concentrações imperceptíveis para nós.
Os cães têm cerca de 43 músculos faciais — incluindo um músculo, o levator anguli oculi medialis, que evoluiu para fazer aquele olhar enternecedor que tanto nos comove.
Varia consoante a raça: caniches e chihuahuas vivem em média 14 a 16 anos, enquanto Grandes Dinamarqueses raramente ultrapassam os 7 a 10 anos.
O Galgo Inglês é o cão mais rápido do mundo, atingindo cerca de 72 km/h em corrida — mais veloz do que qualquer atleta humano alguma vez registado.
Dormem entre 12 e 14 horas por dia e sonham, tal como nós, durante o sono REM. Por isso vemos as patas e o focinho a mexer-se enquanto descansam.
Cães treinados podem reconhecer mais de 1000 palavras. A border collie Chaser chegou a aprender o nome de 1022 brinquedos diferentes.
Os cães são os nossos elos com o paraíso. Não conhecem maldade, ciúme ou descontentamento.— Milan Kundera